domingo, 3 de julho de 2011

INAUGURAÇÃO





Com a palavra, o leitor.

“Ler Macunaíma, para mim, foi uma experiência singular. A primeira vez que li esse romance, comecei intrigada pelo título, indagando como poderia um herói não ter caráter algum. Estava acostumada com os heróis do romantismo, sempre elegantes, polidos, apaixonados... sobretudo, apaixonados que sofriam apaixonadamente... Minhas referências literárias remetiam, sobretudo, a autores como José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo... e outros similares. Tinha lido também algumas obras de Machado de Assis e Eça de Queiróz, mas eu gostava mesmo era dos primeiros. A primeira leitura foi uma travessura, uma investida secreta na biblioteca de casa, escolhendo um livro que não era um dos indicados pelo meu pai.
Foi quase um desastre. Fiquei indignada com aquele herói tão fora dos padrões das minhas expectativas e com valores tão diferentes daqueles que me haviam sido ensinados. Mentir? Jamais. Enganar os outros, então... nem pensar. E o que era aquilo de “brincar” ? Será que era brincar mesmo?
A linguagem, então, que diferença. Muita coisa eu não entendia, o que tornou a leitura quase insuportável, numa determinada hora. Era persistente, porém. Não desistia tão fácil de uma leitura, e terminei. Mas não adiantou muita coisa. Fiquei decepcionada. Não entendia aquela mistura de lendas, os caminhos absurdos que o herói fazia nas suas peregrinações. Achava uma loucura, mas gostava da mistura de ficção com realidade no encontro de Macunaíma com personalidades brasileiras reais.
A segunda vez que li Macunaíma foi no ginásio. A professora de literatura recomendara. Antes, porém, fizera uma preleção sobre o Movimento Modernista, sobre como estava o país e o pensamento brasileiro no momento da produção da obra. Aí entendi. Foi como se tirassem um véu de sobre o romance. Compreendi as intenções de Mário de Andrade. Compreendi a tal de desregionalização da obra, os motivos do autor para a utilização da linguagem, a costura que ele fez da cultura brasileira, a crítica ao pensamento da época e aos preconceitos de então, a pesquisa por detrás da obra.
Nessa segunda vez, estudei a obra. E imaginei tê-la compreendido.
A terceira vez que li Macunaíma, foi como se lesse uma longa história, um longo causo... daqueles que ouvia falar que eram contados pelos caipiras em noites de lua cheia. Foi de uma tacada só: comecei na sexta, e terminei sábado à noite, no meio de uma faxina na minha biblioteca. O livro estava ali, empoeirado, pedindo para ser aberto... e eu não resisti. Li, deleitando-me. E foi então que descobri sua atemporalidade, sua genialidade, sua magia. Que senti minha alma fisgada, literalmente, por aquelas palavras...
Foi nessa vez que pude compreender o que é arte.”
                                                                                                 (Lêda Gontijo Pereira, artista plástica)


Se quiser, assista um trecho do filme: www.youtube.com/watch?v=QduPWn4CPx0. Você pode, também, ler a sinopse na Livraria Cultura, acessando o link: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=2359383)


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